23/10/2009

Saudades...

23/10/2009 0

Sinto falta.

Das conversas bobas na madrugada, de assistir Jô Soares repetido, de fazer rir sem motivo.
O leite quente na volta da faculdade. O arroz, o feijão, o macarrão.
De xingar o juiz quando ele expulsava algum jogador do Fluminense. De chamar o Palmeiras de sem vergonha quando perdia.

Saudades.

Saudades de chegar do futebol e dizer oi, de dar um beijo e ir tomar banho antes que ela brigasse.

De fazer planos pro sábado a noite. De ter que convence-la a sair. Caseira que só vendo.
De toda hora ir na cozinha pra ver se ela precisava de ajuda. E ela quase nunca precisava.
Ajeitar o lenço no cabelo antes do almoço em frente o espelho. E quando ele caía deixava ela nervosa.
Saudade de deitar no braço dela caindo de sono a noite. As vezes ainda com cheiro de detergente ou de gordura, mas era um cheiro acolhedor, confortável.
Saudade do sorriso dela. De ver ela feliz, animada com alguma coisinha que mudasse a rotina de sempre.
Os sustos que ela levava, seja do meu pai, ou seja meu. Depois de dois ou três palavrões, as risadas.

Ficar sentado no muro no terraço enquanto ela lavava roupa. Eu lia um livro e ela perguntava o que era.
Ela sempre pedia compania. Odeia ficar sozinha.

Saudade de sair e ela contar as moedas do pão.


A vida muda, o tempo muda. Os problemas impedem que tudo transcorra da maneira que devia ser: a maneira certa.

O que não muda é a saudade da minha mãe!

14/10/2009

O tempo

14/10/2009 1

O ontem, o hoje e o amanhã.
Três fases de tempo sendo duas fora do tempo. O que aconteceu ontem não vai acontecer hoje, e nem os fatos do hoje ou do ontem estarão presentes no amanhã.
Só o que sentimos, realmente permanece.

O amanhã
Deitada em seu peito, ela sonhava com um amigo se afogando. Acordou assustada, mas logo sentiu as mãos de Jim tocando seus braços, e o medo logo se exauriu. Ela sentia uma segurança enorme quando estava em seus braços. Ele ainda se sentia inseguro em qualquer lugar, mas quando estava com ela, sentia que um pedaço do seu mundo poderia finalmente se acertar, e ele precisava disso.

O hoje
Jim pensou ter conhecido a pessoa perfeita. Ele não está pronto pra alguma coisa nova, mas ele sabe que aquela pessoa pode ser o sentido da falta de sentido do agora. Cortejar? Enviar SMS? Entre o moderno e o tradicional, ele só estava feliz por ter o telefone dela. Mas sabia que não iria ligar. Não tinha o que falar. Na verdade ele tinha sim. Queria chamar ela pra tomar sorvete. Mas tinha medo de ser muito infantil. Pensou em chamar pra dançar, mas, não sabe dançar.

O ontem
Os tempos do colegial haviam passado. Agora a realidade era dura, com pouco dinheiro e muita responsabilidade. Viver juntos poderia não ser a melhor coisa no momento, mas eles já não existiam sem o outro de qualquer forma.
Naquela tarde de terça-feira, ele podia esperar por qualquer coisa, menos pela pior delas. Perder o amor de sua vida não estava nos planos de alguém perdido, que estava no meio do caminho da estrada do encontrar.
Ele queria morrer, mas precisava seguir a vida.
Meses se passaram até ele conseguir olhar outra mulher. Mas não olhou qualquer mulher.

Cada parte sem as demais seria vaga, sem sentido.
O ontem, o hoje e o amanhã se completam milimetricamente.
Milimetricamente.

28/09/2009

Luzes na Janela

28/09/2009 0

São quase duas da manhã de uma segunda feira que sucede um domingo movimentado. A música que toca é de alguma coisa meio psicodélica. Antes tava tocando I Stay Away do Alice In Chains.
Faz calor. Lá fora o ar está meio parado, e o tempo fechado.
Começou a chover. Parou de chover.
As costas doem. Vou até a janela um pouco. Olho para os prédios da frente e imagino coisas.
No prédio em frente, duas luzes estão acesas. Em duas janelas só a TV ou o computador permanecem ligados. Nas demais o mundo dorme.
Sei bem que sou louco, mas coisas estranhas me acontecem quando vejo luzes acesas em meio ao sincero breu. É o sinal da privacidade alheia, da individualidade de cada lar.
Pessoas podem estar fumando, assistindo um filme de guerra, fazendo sexo, dormindo com a TV ligada. Podem estar matando alguém, ou matando as saudades de alguém.
É louco pensar em cada janela, em cada luz acesa.
A minha luz está acesa agora. O que estou fazendo? Estou escrevendo.
Na verdade, descrevendo a vida agora, o que vejo, sinto e o que acontece.
As vezes só dá vontade de falar o que é que há.
Só.
Daqui a pouco eu vou tomar banho. Vou desligar o computador e deitar assistindo Friends.
E as janelas vão se acendendo, se apagando lá fora. Enquanto a gente dorme, a vida rola enquanto rolamos na cama.
Acho que Cranberries deram o ar da graça. Hora de parar de escrever, e só escutar
Tchau!

Ah, voltou a chover, e eu apaguei a luz!

13/08/2009

A Espera Pelo Impossível (Um conto moderno) Parte 02

13/08/2009 0

Passara-se seis meses desde a curiosa compra daquele celular. Confirmado sua previsão, ele não recebeu nenhuma ligação todo esse tempo, mas o mantinha ligado constantemente. Porém a novidade passou, e mais algumas semanas fez com que o aparelho fosse totalmente esquecido.
Numa noite de terça-feira, Mr. Jack foi para o hospital da cidade, acusando problemas para respirar. Ele melhorou na manhã seguinte, fazendo a filha e o neto se tranquilizarem. Mas subitamente o velho homem faleceu horas depois. Morrera dormindo. O pequeno Maurice não acreditava que havia perdido seu avô, mas sabia que era hora de dar força a sua mãe. A casa velha à beira do mar ficou para Janeth, que se comprometera agora a cuidar.
Numa noite de sexta-feira, estavam os três na casa ajeitando as coisas do avô. Já havia se passado dois meses desde a morte de Jack. Enquanto Stuart arrastava uma mesa, Janeth pedia silêncio. Tinha algum barulho vindo do quarto de tralhas do pai. Maurice foi correndo para ver o que era. No fundo de uma caixa, encontrou o celular do avô, tocando pela primeira vez desde a compra. Janeth atendeu, e perguntou quem era. Era Louise, uma antiga namorada do pai, que vivia no Canadá. A filha que morava nos Estados Unidos havia dado o número à velha mulher, que descobria naquela ligação a morte do amor da faculdade.
Naquele momento, Maurice saiu correndo em direção ao lado de fora da casa. Se virou para o mar e gritou, como se fosse para o avô, que havia uma ligação para ele. Nesse momento uma forte ventania atrapalhava o cabelo do neto. Maurice sorria de uma forma louca, e pulava entre as pedras no quintal.
As cinzas do avô haviam sido jogadas no mar. E o que julgava impossível aconteceu: alguém ligou para o celular. Alguém havia se lembrado dele.
Janeth sabia, naquele momento, que podemos esperar pelo impossível, pois é possível que aconteça. Maurice? Ainda está rindo no quintal...

The End
 
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