terça-feira, 8 de abril de 2014

Diálogo despedaçado


- Sabe por acaso porque estou aqui?
-Sim, você foi encontrada aos pedaços. A ambulância te trouxe pra cá.
- Certo, e onde está o resto de mim?
- Ainda estão procurando, as autoridades estão cuidando disso.
- E você acha que terão sucesso?
- Segundo minha experiência, não.
- Isso é uma coisa muito triste. Sou só uma parte agora.
- Mas quem disse que pra ser você é preciso ser inteiro?
-Li em um livro.
- Jogue ele fora. Parta-o em pedaços.
- Agora você está zoando com a minha cara.
- Mentira. Fala isso só porque está em pedaços.
- Exato. Por acaso não tens coração?
- Tive mas ficou na minha última cidade.
- E como sobrevive sem?
- Me acostumei a olhar as coisas por olhar. Não sinto nada além de frio.
- Eu pensava que eu fosse triste, mas vejo que você está pior.
- Como pode saber disso?
- Pela tristeza do que você contou. Não tens coração e isso é sofrível.
- Encontro todos os dias gente sem cérebro, sem caráter e sem olhos e estão todos caminhando por aí. Até sorriem, se quer saber.
- E quantos sem coração?
- Ora, muitos, mas nenhum em situação tão grave quanto a sua.
- Eu vou morrer?
- Não.
- Então porque julga meu caso dessa forma?
- Pois pelo seu lamento, tudo o que lhe sobrou foi um coração.

2 comentários:

Carol Vicente disse...

Custei a lembrar, maaasss... Me remeteu um pouco a Veríssimo! Se não leu, leia O Analista de Bagé. Muito bom.
O que mais me lembrou, foi O Lixo [http://www.nre.seed.pr.gov.br/goioere/arquivos/File/anexo1_cronica_o_lixo.pdf]
Gosto de saber que está ativo, escrevendo... Vc nasceu pra isso. Pra isso, e pra mim e pro Filipe. Sabe disso, né?
Te amo.

Majuzinha disse...

Tão legal ler seu blog

@majucyara
http://mvsantos.blogspot.com